domingo, 22 de novembro de 2015

Índia (1952)

Índia

(Letra: Manuel Ortiz Guerrero / Música: José Asunción Flores – Versão em Português: José Fortuna / Interpretes: Cascatinha & Inhana)



A história que contaremos aqui vai muito além de informações sobre uma das músicas mais conhecidas no Brasil e no mundo, apresenta três fatos que mudaram o cenário da música sertaneja: Popularizou o gênero musical Guarânia, apresentou ao Brasil uma das duplas mais carismáticas e afinadas do país, Cascatinha & Inhana e deu projeção ao trabalho de um dos maiores (senão o maior) compositor de música sertaneja brasileiro: José Fortuna.

Manuel Ortiz Guerrero
A música Índia escrita por José Fortuna, é a versão brasileira de um sucesso paraguaio, composto originalmente pelo músico José Asunción Flores e o poeta Manuel Ortiz Guerrero, ambos paraguaios.

A canção original fez tanto sucesso, que em 1944, por meio de um decreto do governo, foi oficializada como “Canção Nacional”, uma espécie de hino, que a faz ser reconhecida como parte da cultura popular paraguaia.

Aliás, esta canção foi composta utilizando um gênero muito popular no Paraguai, chamado de Guarânia.



Guarânia, a música que conta a história de um povo
Guarânia é um gênero musical paraguaio, criado por José Asunción Flores, quando realizava experimentações para um arranjo da polca Ma'erápa Reikuaase. Consiste no uso de ritmos e melodias lentas em tons melancólicos. Tem como objetivo, expressar por meio da música o sentimento do povo paraguaio.

José Asunción Flores
As canções deste gênero são tão apreciadas pelas classes mais populares, que são reconhecidas como parte do folclore musical paraguaio.

Acredita-se que o ritmo da Guarânia chegou ao Brasil, por influência dos próprios paraguaios, durante o período conhecido como Ciclo da Erva Mate, período quando o Paraguai (principal produtor), proibiu a exportação do produto para fora do país e o Brasil viu a oportunidade de cultivar a erva e exportar para países vizinhos. 

Neste período, muitos paraguaios se estabeleceram na região de Mato Grosso do Sul em busca de trabalho, devido à proximidade com a fronteira dos dois países.

A Guarânia tornou-se parte da música brasileira, graças ao trabalho de pesquisa realizado pelos compositores Raul Torres, Ariovaldo Pires, Mario Zan e Nhô Pai, que faziam sucessivas viagens ao Paraguai e simpatizavam com o gênero musical. 

Raul Torres é o compositor de uma das Guarânias de maior sucesso no Brasil, a canção “Colcha de Retalhos”, que também foi gravada por Cascatinha & Inhana (conheça mais sobre a história de Raul Torres, lendo sobre a história de outro grande clássico do compositor, “Cabocla Tereza”).

A partir da década de 1940, a Guarânia tornou-se um dos gêneros musicais mais utilizado pelos compositores de música sertaneja no Brasil, como base para suas composições. Mas foi somente nos anos 70 e 80, com o sucesso de Milionário e José Rico, que o gênero se consolidou, pois, a maioria das músicas cantadas pela dupla faziam uso do ritmo.

Além de Milionário e José Rico, durante os anos 80 diversas duplas cantaram Guarânias: Chitãozinho e Xororó, Teodoro & Sampaio, João Mineiro e Marciano e o Trio Parada Dura.

Nos anos 90 e no início dos anos 2000 o gênero foi praticamente abandonado e foi somente no início da década de 2010, que as duplas sertanejas voltaram a incluí-las em seus repertórios, porém muito timidamente. Neste período destacam-se a dupla Victor & Leo que gravou a música “Sem Você” (composição de Victor Chaves) em parceria com a cantora Paula Fernandes, seguido das novas duplas que surgiram desde então como Zé Henrique & Gabriel (música: Peito de Aço), Fred & Gustavo (música: Sem Você Aqui), Israel & Rodolfo (música: Marca Evidente). 

As Guarânias mais populares no Brasil são:

  • Pra não dizer que não falei das flores - Geraldo Vandré;
  • Índia - Cascatinha & Inhana;
  • Colcha de Retalhos – Cascatinha & Inhana;
  • Fio de cabelo - Chitãozinho & Xororó;
  • Galopeira – Donizetti;
  • Nuvem de lágrimas - Fafá de Belém;
  • Cabecinha no ombro - Almir Sater;
  • Meu primeiro amor – Perla;
  • Telefone mudo - Trio Parada Dura;
  • Dama de vermelho - Trio Parada Dura;
  • Entre outras.

José Fortuna, um compositor “antenado” com seu tempo.

Quando José Fortuna fez a versão de Índia, a música sertaneja passava por transformações nos ritmos utilizados. Os compositores, no desejo de ter sua obra lançada e reconhecida, eram influenciados e faziam uso de padrões musicais populares da época em suas composições. É fato que quando um determinado estilo musical se destaca, surgem diversos artistas que tentam “surfar a onda” e quando se destacam, posteriormente, imprimem seu próprio estilo.

José Fortuna
Mas José Fortuna não compôs somente Guarânias, ele possuía muita versatilidade na aplicação de diversos ritmos musicais às suas obras, tais como: Marchas, Rancheiras, Tangos, Maxixes, Sambas-Canção, Corridos, Fox, Valsas e Arrasta-Pés.

O tema principal de suas canções foi a vida rural. Nascido em Itápolis (cidade do estado de São Paulo, localizado a cerca de 370km da capital), José Fortuna começou a escrever seus primeiros versos ainda criança, no chão de terra com um pedaço de madeira, quando acompanhava seu pai em suas andanças pela lavoura.

Teve sua primeira música gravada em 1944, a canção “Moda das Flores”, pela dupla Raul Torres e Florêncio.

Além de compositor, José Fortuna foi ator, autor teatral e cantor. Em 1947, formou dupla com seu irmão Euclides Fortuna, utilizando como nome artístico Zé Fortuna & Pitangueira e se mudaram para a capital paulista.

Entre 1948 e 1973, José Fortuna, Pitangueira e mais um acordeonista (que foram se alternando ao longo do tempo), formaram um trio, Os Maracanãs.

Participaram de inúmeros programas de rádio em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os maiores sucessos do trio foram o cateretê “O selo de Sangue” (1956) e a valsa “Lenda da valsa dos noivos”, ambos compostas por Zé Fortuna & Pitangueira.

Fizeram parte do trio os acordeonistas: Coqueirinho (1948-1953), Rosinha (1953-1959) e Zé do Fole (1959-1973).

O trio gravou cerca de 40 LPs e diversos discos de 78 rotações, sendo a maioria das músicas composição dos irmãos Fortuna.

As músicas de José Fortuna faziam sucesso tanto na capital, quanto no interior paulista. Suas canções eram apreciadas por diversos músicos regionais, em especial Francisco da Silva, o Cascatinha.

Os Sabiás do Sertão: Cascatinha & Inhana

Nascido em Araraquara (cidade do interior do estado de São Paulo, localizada a cerca de 300Km da capital), Francisco da Silva, aos 10 anos, mudou-se com toda a família para Marilia (município do interior paulista, que fica a cerca de 240km de Araraquara). Foi nessa época que recebeu o apelido de Cascatinha, porque no intervalo entre as aulas, ele costumava fugir da escola para tomar banho numa queda d’água próxima, que chamavam de Cascatinha.

Quando jovem, depois uma passagem pela profissão de servente de pedreiro, foi admitido por uma banda local como percussionista. Como tinha ouvido apurado para a música, assobiava os sucessos que ouvia na rádio, para que o mestre da banda escrevesse a partitura das músicas.

Cascatinha aprendeu a tocar violão e bateria. Algum tempo depois, ingressou num conjunto musical que se apresentava cantando modinhas e valsas românticas em bailes da cidade.

Em 1937, passou pela cidade de Marilia o Circo Nova Iorque. Nesta época, o circo era o principal meio para a apresentação de artistas. Foi numa destas apresentações que Cascatinha conheceu o cantor Chopp (apelido de Natalício Firmino) e assim, com 18 anos decidiu seguir o circo, sendo admitido como baterista.

A medida que participava das apresentações, Cascatinha foi ganhando confiança e revelando suas qualidades como interprete. Nesta época, decidiu fazer dupla com o cantor Chopp iniciando assim a parceria Chopp & Cascatinha. Aliás, por coincidência, havia na região uma cerveja muito conhecida chamada de Cascatinha, desta forma o nome da dupla passou também a ser uma referência.

Em 1941, o circo Nova Iorque passou pela cidade de Araras (município do interior do Estado de São Paulo, localizada a cerca de 350km de Marilia). Lá, Cascatinha conheceu Ana Eufrosina da Silva, cantora da Jazz-Band de Araras, grupo musical formado por Ana e seus irmãos: Maria das Dores, José do Patrocínio e Luiz Gonzaga.

Foi amor à primeira vista, Ana desfez um noivado de mais de um ano e contra a vontade dos pais “fugiu” com Cascatinha. Do namoro para o casamento levou apenas cinco meses e durou 40 anos.

Cascatinha e Inhana
Em 1942, Cascatinha, Ana e Chopp deixaram o circo Nova Iorque e foram para o Rio de Janeiro, onde formaram um trio chamado de Trio Esmeralda. Cantavam em circos por todo o estado e em programas de calouros, apresentados por Paulo Gracindo e Ary Barroso. Sobreviviam dos prêmios em dinheiro que ganhavam nestes programas e dos caches recebidos nas apresentações realizadas nos circos.

Meses depois o Trio se desfez, após um desentendimento entre Cascatinha e Chopp. Naquele momento Cascatinha e Ana decidiram ser apenas uma dupla. Criaram o apelido Inhana, uma corruptela de Sinhá (palavra que caracterizava um meio respeitoso de se dirigir às senhoras), com a união do nome de Ana, que significa Nhá Ana ou Senhora Ana, apelido muito utilizado no interior, para pessoas que se chamam Ana.

No interior do Estado do Rio de Janeiro, foram contratados pelo circo Estrela Dalva. Fizeram excursões por todo o Brasil.

Em 1948, cansado de tantas andanças, se mudaram para São Paulo. Neste período foram contratados pela Rádio América e posteriormente, em 1950, se transferiram para a Rádio Record, onde permaneceram por 12 anos.

Em 1951, substituíram Raul Torres num show da cidade de Jundiaí (devido à problemas de saúde). O combinado era cantarem apenas uma música, “Ave-Maria no Morro” (composição de Herivelto Martins, gravada em 1942), mas foram tão aplaudidos que saíram somente depois de cantar mais meia dúzia de músicas. 

Sabendo do sucesso do show, Raul Torres convidou Inhana para participar do acompanhamento vocal na gravação de seu disco gravado naquele ano, pela gravadora Todamérica.

Inclusive, auxiliados por Raul Torres, Cascatinha e Inhana gravaram seu primeiro disco em 1951 pela mesma gravadora. O disco era um “78 rotações” que continha as músicas “La paloma” (composição de Iradier e Pedro Almeida) e “Fronteiriça” (composição de José Fortuna).  Aliás, vale ressaltar que José Fortuna era um dos compositores preferidos de Cascatinha.

Na gravação do seu segundo disco, escolheram para o repertório as canções Índia e "Meu Primeiro Amor", ambas versões de músicas populares em seus idiomas originais. Há um fato curioso nesta história, pois o disco com as músicas demorou a sair, porque o Diretor artístico da gravadora, Hernani Dantas não acreditava que uma versão em Português da música fosse fazer sucesso, porque a versão original em espanhol era conhecida demais.



Porém o tempo viria mostrar que Hernani estava enganado e em seu primeiro ano de divulgação, o disco vendeu cerca de 300 mil cópias, um número alto, se considerar que naquela época, a população não possuía tantos aparelhos fonográficos. Desde de seu lançamento até meados dos anos 90, a gravação vendeu mais de 3 milhões de discos.

A dupla foi muito premiada ao longo dos anos 50, receberam diversas condecorações:
  • Três troféus Roquette Pinto (Premiação concedido pela AFEU- Associação Dos Funcionários das Emissoras Unidas - rádios Bandeirantes, Record Pan-Americana e São Paulo);
  • Medalha de ouro da revista “Equipe”, onde foram apelidados de “Os Sabiás do Sertão”, devido aos seus recursos vocais e as nuances que desenvolviam na interpretação das músicas.
  • Disco de ouro pela vendagem de mais de 100.000 cópias.
Em 1959 gravaram outro de seus grandes sucessos, a música “Colcha de Retalhos” (Guarania composta por Raul Torres). Neste mesmo ano, Cascatinha foi promovido à Diretor Artístico da gravadora Todamérica, onde descobriu e lançou duplas famosas como Nonô & Naná e Zilo & Zalo.

Em toda a carreira, a dupla lançou 34 discos 78 rotações e cerca de 30 LPs. Entre seus grandes sucessos, destacam-se as canções: Índia, "Meu Primeiro Amor", Solidão, Anahi, Guarcyra, "Quero Beijar-te as mãos", "O menino e o circo", "Flor do Cafezal", "Chuá Chuá", "Colcha de Retalhos" e "Serra da boa esperança".

Permaneceram ativos e gravando regularmente até a morte de Inhana em junho de 1981, vítima de um mal súbito, quando se preparava para as comemorações de 40 anos de seu casamento com Cascatinha.

Cascatinha continuou a carreira de cantor, se apresentando sozinho em cidades do interior de São Paulo. Faleceu em 1996, vítima de cirrose hepática.

O legado de José Fortuna

Em 40 anos de carreira, José Fortuna compôs e gravou cerca de 2000 músicas. É o autor brasileiro com o maior número de músicas gravadas.

Além de Cascatinha & Inhana, suas músicas foram grandes sucessos nas vozes de inúmeros interpretes. Entre elas estão: "Berrante de Ouro" (Duduca e Dalvan – Ano:1980), "O Vai e Vem do Carreiro" (Carlos Cezar e Cristiano – Ano:1981), "Cheiro de Relva" (Dino Franco & Mourai – Ano:1983), "O Ipê e o Prisioneiro" (Liu e Leo – Ano:1983), "Terra Tombada" (Chitãozinho e Xororó – Ano:1986), entre outras.

A música Índia foi regravada inúmeras vezes, não só por cantores sertanejos, mas também por inúmeros interpretes da MPB, como Agnaldo Timóteo, Ângela Maria, Nara Leão, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa. Em 2006, a música Índia foi regravada por Roberto Carlos como tema do personagem Serena, interpretado por Priscila Fantin, na novela Alma Gêmea, escrita por Walcyr Carrasco.

José Fortuna faleceu em novembro de 1983, vítima de doença de chagas. 


Fontes:


  • www.wikipedia.org
  • http://blognejo.com.br/
  • http://www.josefortuna.com.br/
  • http://www.recantocaipira.com.br/
  • Site: Saudade-Da-Minha-Terra - http://saudade.netlivre.org/
  • Site: http://www.recantocaipira.com.br/
  • Site: maps.google.com
  • Site: museudatv.com.br
  • Site: http://www.boamusicaricardinho.com – Seção Compositores e Poetas da música caipira de raiz
  • Entrevista: Cascatinha & Inhana – Programa Viola minha Viola – Jul/1980
  • Programa Dois Diretores em Cena – Rádio Jovem Pan – Fev/2012
  • Trabalho de Dissertação. Entre modas e Guarânia: A produção musical de José Fortuna e seu tempo (1950-1980) – Jaqueline Souza Gutemberg – Uberlandia – 2013.

 



2 comentários:

  1. Sempre acompanhei as personagens desta história, através da música, somente agora conheci mais um pouco de como chegaram a fazer sucesso. Trabalho, trabalho.

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  2. E a letra das músicas aí referidas? Que tal acrescentar ?

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